quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

SHAKESPEARE

ILUSÃO

"Ó ilusão, deixa em paz os meus sentidos!"

Shakespeare

( Noites de reis - Ato III, Cena IV : Viola)

O MITO E A FILOSOFIA

Por que tomamos o ilusório pelo real? Nas diversas divagações do meu ser, reconheço que a filosofia representa primordialmente a busca do saber, mais do que propriamente o saber adquirido em si mesmo. A Grécia é o berço do conhecimento racional, onde o conhecimento desvincula-se da religião e do mito. Pitágoras de Samos (582-497 A.C) foi o primeiro a utilizar-se do termo filósofo, mas com certeza não foi o primeiro filósofo. Podemos nomear também Tales, Anaximandro e Anaxímenes, considerados Pré-Socráticos, sendo que todos estes buscaram descobrir o princípio gerador do kosmos, que se trata da Arkhé, encontrável no mundo fenomênico, por isso estavam buscando a essência na Physis . O termo Kosmos (ordem, organização) se opõe ao termo Kaos (desordem e desorganização).
Quem é o responsável pela ordem do Cosmos? Quem controla a mundo fenomênico? Seria o controle realizado sob o comando de algo com sua essência na Physis? Os primeiros filósofos partiram do conhecido mundo físico para tentar explicar o princípio gerador do kosmos, que se trata da Arkhé. Os mitos e as respectivas narrativas mitológicas representam a forma fantástica que vigorava na época como instrumento de explicação do kosmos. As narrativas mitológicas são as primeiras experiências visando explicar o mundo, caracterizando-se como uma cosmologia insipiente, utilizando-se de critérios sobrenaturais (deuses, semideuses e heróis). Portanto, os mitos possuíam esse caráter explicativo, mas justapunha o real e o ilusório em um mesmo grau de importância explicativa da realidade. O mito representa a primeira tentativa de atribuir sentido ao mundo fenomênico.
Segundo Mondin (1982, p.11), o mito exerceu entre os povos antigos três funções principais: religiosa, social e filosófica. Primeiramente, o mito é o primeiro degrau no processo de compreensão dos sentimentos religiosos mais profundos do ser humano; é o protótipo da teologia. Mas, ao mesmo tempo, ele é também, aquilo que assinala e garante o pertencer a um grupo social e não a outro, pois pertencer a este ou àquele depende dos mitos particulares que alguém segue e cultiva. Finalmente, o mito exerce uma função semelhante à filosofia, enquanto representa o modo de autocompreender-se dos povos primitivos.
A filosofia surgiu como instrumento de racionalização e decantação do real e do ilusório, pois não mais se aceitava as narrativas mágicas como instrumento propulsor do saber. A filosofia busca a explicação raciocinada entre a causa e o efeito, contrapondo-se às explicações mágicas do mito. Portanto, Penso, logo existo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

POEMA "AMOR É UM ARDER, QUE SE NÃO SENTE"

Paulino António Cabral (Amarante, 6 de Maio de 171920 de Novembro de 1789), melhor conhecido por Abade de Jazente, foi um poeta português. Estudou Direito Canónico em Coimbra a partir de 1735 e licenciou-se em 1741. Foi nomeado abade de Jazente em 1752. Além de religioso, escreveu poesias. É personagem do romance histórico Um motim de há cem anos, de Arnaldo Gama. (WIKIPÉDIA).

O poema "Amor é um arder, que se não sente" é muito parecido com algumas parte da música Monte Castelo, de Renato Russo. É ler e comparar. Renato incluiu a informação de que a letra da música possui recortes do Apostolo Paulo e de Camões. Creio que o Abade de Jazente copiou Camões na sua inspiração. É ler e deleitar-se:


Amor é um arder, que se não sente
(Abade de Jazente)

Amor é um arder, que se não sente;
É ferida, que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.
É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia a mais cruel, e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.
É um triste penar entre lamentos,
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.
É suspiros lançar de quando, em quando;
É quem me causa eternos sentimentos:
É quem me mata, e vida me está dando

SONETO Nº 5
LUIS DE CAMÕES

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Monte Castelo - Legião Urbana
Composição: Renato Russo (recortes do Apóstolo Paulo e de Camões).
Ainda que eu falasse
A lígua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.
É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.
É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

domingo, 2 de janeiro de 2011

O QUE É ISTO, A FILOSOFIA?

O QUE É ISTO, A FILOSOFIA?
Que representa a filosofia? É uma das raras possibilidades de existência criadora. Seu dever inicial é tornar as coisas mais refletidas, mais profundas”. (Heidegger, m)
Podemos considerar que a filosofia parte do prodigioso conhecimento existente, não sendo um saber acrescentado ao conhecimento já adquirido. A filosofia pensa a realidade presente, que engloba o ser-no-mundo e o estar-no-mundo.
A Filosofia representa a ratio humana consistente no ato consciente de estar no mundo, pois “ou se deve filosofar ou não se deve, mas para decidir não filosofar é ainda e sempre necessário filosofar. Assim, pois, em qualquer caso, filosofar é necessário. (Aristóteles, protréptico. fr.51).
A filosofia pressupõe algumas características essenciais ao ser pensante, que se manifestam na admiração, na angústia, no medo e na coragem.
A admiração é característica essencial ao filosofo que se espanta frente a cada fato da existência humana, pois nada lhe é natural e tudo possui um sentido. Descartes considerava a admiração uma paixão filosófica, aduzindo que “a admiração me parece a primeira de todas as paixões”. (passions de l’âme, II, 53)
O espanto é a mola propulsora da filosofia. O questionamento do mundo surge mediante o sentimento de admiração, espanto e estupefação diante da existência do ser-no-mundo, aguardando uma explicação do seu estar-ai.
O que é isto, a vida? O que é isto, o mundo? Admiração e espanto são instrumentos impulsionando à busca de uma interpretação do “kosmos filosófico, criando sentido, organização e ordem para um certo “Kaos” sem um porquê.
A angústia é o nada de Kierkgaard, “se perguntarmos qual é o objeto da angústia, deve-se responder aqui como em toda parte: é o nada. A angústia e o nada marcham juntos”(Kierkgaard). A angústia revela a possibilidade de ser e a ameaça do nada. A humanidade revela-se na angústia da impossibilidade possível de sua existência, defendida por Heidegger.
A angústia revela-se ao ser, que se encontra impotente frente ao medo da morte, gerando seres frágeis e inautênticos que fogem da realidade. A morte, por sua vez, desnuda a existência como possibilidade privilegiada de ser possível. A niilidade da angústia conduz a um projeto libertador, mediante a busca autêntica da existência do ser-no-mundo.
O medo se encontra materializado na timidez, no acanhamento, na ansiedade e na impotência de vencer o mundo e lança seus tentáculos em nosso ser, querendo fazer domínio em nós. Entretanto, a admiração, o espanto e a angústia filosófica impulsionam a alma humana a superar o medo, caminhando rumo ao seu epicentro, destruindo-lhe as bases frágeis. O medo é o sentimento de impossibilidade frente ao desconhecido, que somente as luzes da razão supera.
A coragem é um sim à realização do ser-no-mundo; é a existência da possibilidade mediante o esforço, trabalho e tentativa, impulsionando-nos para a criação do nosso devir. A condição humana no mundo exige coragem como força propulsora para a criação e modificação da realidade, domando a maior fraqueza humana, o medo de ser autêntico.